Li e gostei

Quando um livro nos marca

Filha Da-Fortuna

Li e gostei...

por Filomena Vaz

Sociedade do Cansaço

 de Byung-Chul Han

Byung-Chul Han é um filósofo e ensaísta sul-coreano, conhecido pelas suas reflexões sobre a sociedade contemporânea, a tecnologia, a psicologia e a filosofia. Nascido em 1959, em Seul, formou-se em Filosofia e Teologia na Coreia do Sul. Fez o doutoramento na Alemanha, onde vive e onde desenvolveu grande parte do seu trabalho.

A sua obra foca-se nas transformações culturais, sociais e psicológicas da sociedade moderna, especialmente no contexto do capitalismo neoliberal e da era digital. A sua escrita explora temas como o impacto das novas tecnologias nas relações interpessoais, a pressão pela produtividade e a busca constante por desempenho e sucesso, o que, segundo ele, resulta numa sociedade cada vez mais ansiosa e isolada. O seu pensamento é marcado pela combinação de influências da filosofia ocidental (como a fenomenologia de Heidegger ou a crítica social de Marx) com questões da cultura oriental, resultando numa abordagem única para a análise da sociedade moderna.

Entre os seus livros mais conhecidos estão A Sociedade do Cansaço (2010), A Sociedade do Desempenho (2015) e Psicopolítica (2017), onde critica a forma como o capitalismo contemporâneo afeta a saúde mental e as dinâmicas de poder.

Sociedade do Cansaço - Uma Reflexão sobre a Modernidade e os seus Impactos Psicológicos

O livro Sociedade do Cansaço faz a análise profunda das transformações socioculturais e psicológicas que caracterizam a sociedade contemporânea. Publicado em 2010, aborda o modo como a vida moderna, marcada pelo culto da produtividade e do desempenho, numa sociedade governada por um sistema de autoexploração, tem gerado uma crescente sensação de cansaço e vazio.

Ao longo do livro, o autor faz a distinção importante entre o que chama de "sociedade disciplinar" e "sociedade do cansaço". Na sociedade disciplinar, vigente até o século XX, as pessoas regiam-se por normas externas, como leis, regulamentos e instituições de controlo Na sociedade atual, o poder é exercido pela pressão interna que leva as pessoas a autoexplorarem-se em busca do sucesso e do autoaperfeiçoamento. O cansaço, portanto, não é causado por uma sobrecarga externa, mas pela constante exigência interna de melhorar, ser mais produtivo e alcançar um ideal de excelência.

A competitividade e a busca incessante por eficiência resultam num desgaste psicológico profundo. A individualidade, em vez de ser um espaço de liberdade, torna-se um campo de batalha onde o sujeito se sente constantemente pressionado a superar os seus próprios limites. Em contraste com a sociedade anterior, onde o descanso e a recuperação eram vistos como elementos essenciais para o bem-estar, esta sociedade valoriza a constante mobilização, o trabalho incessante e o rendimento, onde as tecnologias digitais têm também papel relevante.

Com o aumento do uso das tecnologias, a fronteira entre o trabalho e lazer generalizou-se, o que acentua a sensação de esgotamento físico e psicológico. A intensificação da comunicação, as redes sociais e a busca pela validação imediata criam um ciclo vicioso, onde as pessoas se sentem constantemente insatisfeitos e incapazes de escapar à pressão dos resultados.

Ao refletir sobre estes aspetos, o livro convida o leitor a repensar as formas como vive e as exigências que impõe a si mesmo. O autor, que questiona o valor dos resultados obtidos a qualquer custo, não propõe uma solução simples, mas um convite a uma pausa crítica.

"Sociedade do Cansaço" é, portanto, uma obra que convida a refletir sobre os impactos da sociedade na saúde mental e no bem-estar das pessoas, alerta para o preço da busca incessante pela produtividade e sucesso, e faz repensar os valores que orientam a vida coletiva e individual. Num mundo cada vez mais arrebatado e pressionado pela lógica de desempenho, talvez esteja na hora de redescobrir o valor do descanso, da reflexão e da desconexão.

Filha Da-Fortuna

Li e gostei...

por Paula Almeida

Torto Arado

 de Itamar Vieira Júnior

O torto arado foi-me oferecido por uma amiga da minha mãe, dizendo-me que eu ia gostar muito. Não se enganou. É um livro do autor barsileiro Itamar Vieira Júnior, e como muita literatura barsileira que tive o prazer de ler, tem uma linguagem doce, cantada e encantada.
A história começa de forma violenta, macabra. Duas irmãs, crianças, brincam com uma faca e cortam a língua sendo que, para uma delas, o corte é fatal e não mais volta a falar, senão pela voz da sua irmã.
A obra espelha a vida dura dos trabalhadores das fazendas do Brasil, os contrastes entre a gente humilde e os senhores, proprietários que exploram a mão de obra do povo, após a escravatura. Mas nas entrelinhas surge a questão: acabou mesmo a escravatura? Oficialmente sim, mas na verdade a condição humana, na forma como nos é apresentada, não.
Gostei de ler sobre a vida simples, despida de adornos, sobre a condição do povo, cuja riqueza está nas suas crenças e tradições. Gosto do misticismo irracional das gentes e das almas antigas. Gosto do amor retratado de forma visceral, quase sem sentido, tão diferente da realidade dos filmes ou da nossa sociedade.
Esta obra espelha a também a aceitação de quem se é, de como se vive, a prisão da realidade. É um livro feito de escolhas e de tragédias da vida, que reflete a História do Brasil e do seu povo, nas profundezas rurais.
O enredo é cativante, o ritmo cálido e lento e a linguagem agradável. Quando terminei senti saudades de ler Jorge Amado.

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por ChatGPT

Ensaio sobre a Cegueira

 de José Saramago

O torto arado foi-me oferecido por uma amiga da minha mãe, dizendo-me que eu ia gostar muito. Não se enganou. É um livro do autor barsileiro Itamar Vieira Júniro, e como muita literatura barsileira que tive o prazer de ler, tem uma linguagem doce, cantada e encantada.
A história começa de forma violenta, macabra. Duas irmãs, crianças, brincam com uma faca e cortam a língua sendo que, para uma delas, o corte é fatal e não mais volta a falar, senão pela voz da sua irmã.
A obra espelha a vida dura dos trabalhadores das fazendas do Brasil, os contrastes entre a gente humilde e os senhores, proprietários que exploram a mão de obra do povo, após a escravatura. Mas nas entrelinhas surge a questão: acabou mesmo a escravatura? Oficialmente sim, mas na verdade a condição humana, na forma como nos é apresentada, não.
Gostei de ler sobre a vida simples, despida de adornos, sobre a condição do povo, cuja riqueza está nas suas crenças e tradições. Gosto do misticismo irracional das gentes e das almas antigas. Gosto do amor retratado de forma visceral, quase sem sentido, tão diferente da realidade dos filmes ou da nossa sociedade.
Esta obra espelha a também a aceitação de quem se é, de como se vive, a prisão da realidade. É um livro feito de escolhas e de tragédias da vida, que reflete a História do Brasil e do seu povo, nas profundezas rurais.
O enredo é cativante, o ritmo cálido e lento e a linguagem agradável. Quando terminei senti saudades de ler Jorge Amado.

Vocabulário 
Enredo 
Ritmo
Elegância
Filha Da-Fortuna

Li e gostei...

por Maria de Lurdes Campos

Filha da Fortuna

 de Isabel Allende

Foi num momento muito especial da minha vida que descobri Isabel Allende, que passou a ser minha escritora de eleição.
A primeira obra que li da autora foi A Casa dos Espíritos, um estrondoso sucesso, mas foi o romance Filha da Fortuna um dos melhores livros que tive o prazer de ler.
É uma obra marcante por vários motivos: pelo seu estilo narrativo, pelo contexto histórico que a autora retrata, pela densidade das personagens construídas e pelo detalhe na descrição de espaços e lugares.
De facto, cada personagem e cada situação são cuidadosamente inseridos e desenvolvido sem pressa, tornando a sua leitura bastante agradável.
Desta vez, a escritora coloca os holofotes voltados para Eliza Sommers, uma recém-nascida abandonada em frente à casa dos irmãos Sommers: Jeremy, o chefe da família, um homem de negócios rigoroso; John, capitão de uma embarcação, sempre no mar; e Rose, uma jovem que recusou a escravidão da vida conjugal e que insiste para que a menina seja adotada. O crescimento e educação de Eliza ficam, assim, divididos entre os privilégios da educação anglo-saxónica que lhe é transmitida e, ao mesmo tempo, pela magia, simplicidade e prazeres dos sentidos que são passados por Mama Fresia, a cozinheira da casa.
Na fronteira incerta entre estes dois mundos muito diferentes, Eliza vive uma paixão proibida com Joaquìn Andieta, empregado da casa, que decide partir para a Califórnia no período da “febre do ouro” para fazer riqueza a casar com Eliza.Esta fica desolada ao descobrir uma gravidez inesperada e decide também ela arriscar a sua vida em busca do seu amor. É neste longo caminho que a menina se faz mulher.
Ao longo da narrativa, a personagem de Eliza é totalmente desconstruída, tornando-se numa mulher fascinante e inspiradora, quebrando com todos os conceitos femininos da época e assumindo quem ela realmente é, sem se importar com o que vão falar ou pensar.
De uma forma muito subtil, Isabel Allende utiliza a protagonista da história para valorizar a figura feminina. O conceito de mulher como “sexo frágil” é totalmente quebrado na obra, com personagens femininas que não aceitam ter um papel pré-definido na sociedade e querem acima de tudo, ser elas mesmas, donas de suas próprias decisões.
Li e reli várias vezes esta obra, que para mim, mais do que narrar a fuga de uma mulher cheia de paixão em busca do seu amor é, na realidade, a fuga de uma mulher em busca de si, uma prova de resistência às adversidades de um mundo marcadamente masculino, onde apenas homens poderiam triunfar.

Vocabulário 
Enredo 
Ritmo
Elegância

Li e gostei...

por Margarida Teixeira

As velas ardem até ao fim

 de Sándor Márai

Li o livro As velas ardem até ao fim do escritor húngaro, Sándor Márai. É a história de Kenrick e Konrad, dois amigos, separados há 41 anos e que se reencontram num jantar onde a revelação sobre os acontecimentos que os separaram se impõe.
Uma dança entre um diálogo urgente, onde as palavras são uma forma de libertação e um silêncio também ele revelador.
O enredo condensa-se num só dia, o do esperado reencontro, o que prende o leitor à história e lhe cria uma certa inquietação em relação ao desenlace.
Este é um romance sobre a amizade e a traição. Um questionamento que nos perturba e nos seduz…

Vocabulário 
Enredo 
Ritmo
Elegância
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Li e gostei

por Bruno Cardina

Despojos do Dia

de Kazuo Ishiguro

Este foi um dos livros que recentemente li e adorei. Possuindo uma linguagem elegante, com uma cadência perfeita entre a narrativa e ação, o leitor é levado por uma prosa extremamente bem delineada, diria quase perfeita. A sua forma de escrever faz-nos sentir e viver o papel da figura central deste livro, Stevens, mordomo distinto, ao serviço dos seus diferentes 'cavalheiros' e responsável pela gestão da casa senhorial em diferentes aspetos. O mesmo vê-se imerso no bulício da política europeia após a 1.ª Guerra Mundial e entre as convulsões geopolíticas vividas, fruto da sua tarefa. A escrita usada por Kazuo permite enquadrar sempre a narrativa, de tal forma que o leitor seja capaz de ver coisas e adivinhar coisas que o protagonista não pode, tendo como notas deliciosas o típico humor inglês que agradará o leitor mais sisudo.
Um livro que recomendo vivamente e que, após a sua leitura, necessita do visionamento da sua adaptação para filme com o título original 'Remains of the Day', protagonizado por Anthony Hopkins e Emma Thompson, em 1993.

Vocabulário 
Enredo 
Ritmo
Elegância