DESTAQUE DO MÊS_

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PEDRO ROLO DUARTE 

[1964-2017]

Deixou marcas em dezenas de projetos, e um bocadinho dele está naquilo que há de bom na comunicação social portuguesa, sobretudo na imprensa escrita. Pedro Rolo Duarte foi fundador da VISÃO, editor da revista Kapa, do suplemento DNA e do Independente, todos títulos marcantes da história recente da imprensa portuguesa, entre muitas outras coisas. Aos 53 anos, deixa atrás de si um longo percurso.
Jornalista multifacetado, começou a sua carreira muito novo, aos 17 anos, colaborando com o Diário de Notícias, e estreou-se na rádio com apenas 20 anos. «Eu ouvi o futuro da rádio em Portugal e ele chama-se Pedro Duarte», escreveu na altura o crítico de rádio do semanário de espetáculos Se7e, do qual Pedro Rolo Duarte viria mais tarde ser diretor-adjunto (1988-1989). Atualmente, e desde 2009, mantinha com João Gobern, na Antena 1, o programa Hotel Babilónia, nome escolhido em homenagem a Carlos Cáceres Monteiro, primeiro diretor da VISÃO. As conversas entre dois amigos de longa data, que trabalhavam juntos desde os anos 80, colavam à rádio nas manhãs de sábado um grupo fiel e atento de ouvintes.
Pedro Rolo Duarte fez também carreira na televisão, iniciada aos 23 anos, com o semanário de espetáculos Programa das Festas, na RTP 1. Manteve um atividade regular nos ecrãs até 2015, apresentando programas como Tanto para Conversar (RTP 2), Em Legítima Defesa (TVI) ou Canal Aberto (RTP 1), entre muitos outros.
Filho de dois jornalistas, Maria João Duarte e António Rolo Duarte, Pedro cresceu entre jornais e revistas. Amava o jornalismo e a comunicação, e pôs em tudo o que fez paixão, profissionalismo, intensidade e uma enorme dose de exigência, criatividade e arrojo. Projetos como a revista Kapa, de que foi editor-geral (1991), dirigida por Miguel Esteves Cardoso, romperam com o «establishment» e marcaram pela irreverência.
Começou a trabalhar na criação de uma nova revista, a VISÃO, seis meses antes do primeiro número ir para as bancas, a convite de Cáceres Monteiro, tendo tido um papel fundamental na definição do projeto, no qual se manteve, como editor-geral, até 1995, continuando depois cronista até 1999. Com o suplemento DNA, criado em 1996 e vendido aos sábados com o Diário de Notícias durante dez anos, não só deixou uma marca indelével como deu voz a uma geração de novos jornalistas que viriam a dar cartas na profissão.
Foi subdiretor do DN entre 2004 e 2005. Colaborou com o Jornal I no seu primeiro ano, editando o suplemento semanal Nós.
Cronista do SAPO, onde escrevia semanalmente até que a doença o impediu, cerca de três semanas antes de falecer, assinou colunas de opinião em dezenas de jornais e revistas ao longo dos seus 36 anos de carreira. Escreveu também três livros, reunindo as crónicas de imprensa: Fumo (2007), Sozinho em Casa (2002), Noites em Branco (1999).
Morreu, vítima de cancro, a 24 de novembro de 2017, em Lisboa, cidade onde nasceu a 16 de maio de 1964, filho dos também jornalistas António Rolo Duarte e Maria João Duarte.
Um ano depois da sua morte, foi publicado postumamente o seu último livro de caráter autobiográfico, Não respire.
Este é um livro póstumo, mas não é um livro póstumo qualquer. Não Respire começou a ser escrito quando o jornalista Pedro Rolo Duarte soube que tinha cancro. Escreveu-o durante um ano. Pedro pôs um ponto final em Não Respire escassos dias antes de a doença pôr um ponto final na sua vida. Tinha 53 anos.
Esta não é, porém, uma autobiografia ou o diário de um doente − “esperem, quando muito, bocados soltos de uma vida comum”, diz ele na introdução aos 155 textos, divididos em dez partes, do livro. Uma estrutura que inclui o princípio do romance que nunca escreveu, crónicas publicadas em revistas, o caderninho com 16 ideias para os 16 anos do filho, poemas. O fio condutor acaba por ser, ainda que de forma quase invisível, a doença – e a enorme coragem com que enfrenta a notícia que lhe chegou pelo telefone, numa manhã. “Agora estou sentado no sofá, a pensar que o pior e mais difícil vai ser contar à mãe e ao meu filho. (…) Sou capaz de rir sozinho, imaginando uma empresa de comunicação que faça esse trabalho por mim.”
Será neste tom realista e com humor que Pedro vai contando o que lhe acontece, à mistura com episódios da sua vida pessoal e profissional, construindo uma geografia sentimental que viaja entre a serra de Sintra e as redações, entre a militância política e as amizades, entre o medo de morrer e o prazer de fazer. Nesta viagem, descobrirá o leitor os estúdios da TSF quando ainda era uma rádio pirata, o fecho épico da primeira edição d’O Independente, programas de TV filmados em fita reversível, o início da VISÃO, a aventura do DNA (suplemento do Diário de Notícias), as conversas na sala de espera de um hospital. Mas descobrirá, sobretudo, um homem íntegro e inteiro.



Amigos


Amigos… São aqueles que sabem sorrir depois de muitos anos de ausência. Os que se comovem com um abraço forte e chegado. Os que sabem ler no silêncio as palavras que nos faltaram. Cujos nomes não esquecemos nem precisamos de lembrar. São os que queríamos ao pé de nós naquele momento que eles não poderiam adivinhar. Os que estão sempre.
São os que citamos. Cujas histórias recordamos com gosto e prolongadamente. Os que nos fazem lembrar.
São aqueles de quem nos lembramos numa paisagem que se reconhece, num cheiro, numa cor que nos diz respeito. Os que aparecem repentinamente e nos surpreendem.

Amigos. Aqueles com quem quero agora partilhar estas canções. Aqueles que queria aqui bem perto. Os que encontro nos bastidores e me fazem voltar anos e anos atrás.
São os olhares que não mudaram, as palavras e risos que perdemos de vista e do ouvido e, imediatamente, nos soam e são familiares.
Os que dizem a palavra que ficou debaixo da língua.
Os que percebem a palavra sem que a digamos.
São os que não têm medo de olhar, mesmo quando olhar custa porque o tempo passa e estamos todos mais velhos.
São os que descem juntos ao “abismo do vertiginoso futuro”. Os que não cobram nem pagam.

Os que mantêm a conta-corrente em aberto. Os que sabem que a soma das partes não faz um todo, mas que não deixam de entender que no todo estão partes de cada um de nós.
E a conta-corrente volta a preencher-se, linha a linha, de sentimentos e ideias.
A contabilidade acusa os anos, mas não se ressente da idade. Conta-se pelos dedos das mãos, vagarosamente, e a soma é imprecisa, um rascunho do tempo, uma estrela-cadente, um compasso. Passam os anos e regressamos sempre.
Há reencontros que nos parecem óbvios, ainda que inesperados, e outros que nos apanham de surpresa, mesmo que improvisados num degrau dos dias.

Amigos. São assim. São os que sei que vou ver no próximo concerto, na próxima paragem, na próxima estação.
Os que acabam por parar sempre nos lugares onde inevitavelmente paro. Os que abrandam, não vá a gente estar por ali.
Os que apitam, assobiam, telefonam, chamam, gritam. Cujas vozes andam connosco para todo o lado, como grilos nas noites de Verão, e a elas recorremos quando de uma voz precisamos, quando daquela voz precisamos.
São os que nunca morrem. Os que ficam porque dos nossos também são. São de quem nos lembramos quando ouvimos uma canção.
Os que fazem o coração dar voltas sobre si próprio de saudade e remorso e ausência sem ter fim.

São os que merecem o ponto de exclamação no final de um sonoro “que falta que me faz”. E a falta, por mais falta que seja, nunca nos falta quando é deles que falamos. Porque neste “balanço de perdas e danos” o melhor é sabermos que existem e pensam em nós como nós pensamos neles.
Um dia vamos chorar porque queríamos mais e mais tempo não chegou – mas entretanto, inevitavelmente, vamos achando que o tempo não faltará. Porque eles também não faltam.

São os que nos ajudam, os que ainda sabem quem somos e do que somos capazes. Os que nos recordam quem somos.
Aqueles em quem nos revemos, nem que seja por instantes, nem que seja por conta de um instante que já passou. Aqueles cuja palavra é exata.
Um “sim” quer dizer mesmo “sim”, um “não” é a perfeita negação, a recusa, a rejeição.
Na exatidão, eles são o pior e o melhor de nós.
Penso neles quando regresso ao meu melhor passado e sinto que o tempo não me afastou. Nem eu dele.
Como dos amigos. E eu deles.

Pedro Rolo Duarte, in 'Não Respires'

https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2017-11-24-morreu-pedro-rolo-duarte/
https://visao.sapo.pt/visaose7e/livros-e-discos/2018-06-06-Nao-Respire-de-Pedro-Rolo-Duarte-um-livro-postumo-sobre-como-a-vida-nao-se-repete/
https://www.citador.pt/textos/amigos-pedro-rolo-duarte



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Revolução da Maria da Fonte ou a Revolução Popular do Minho
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Representação de Camilo na Prisão da Relação do Porto onde foi preso em 1859
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Estátua de Camilo e da sua Musa, Ana Plácido, na cidade do Porto
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Ana Plácido 
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Ebooks de Camilo Castelo Branco em: Biblioteca Digital AE Tomás Cabreira

CAMILO CASTELO BRANCO 

[1825-1890]

Camilo Castelo Branco - romancista, cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor, foi um dos escritores mais prolíferos e marcantes da literatura portuguesa e talvez a maior figura do movimento romântico. Teve uma existência muito atribulada, com uma vida que conseguiu ser mais mirabolante que qualquer um dos seus romances.

Infância 

De nome completo Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, nascido em Lisboa a 16 de Março de 1825, na freguesia dos Mártires.
Oriundo de uma família, pelo lado paterno, da aristocracia de província, com distante ascendência cristã-nova, era filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco.
O pai foi uma figura que esteve sempre envolvida em escândalos e distúrbios, já desde o tempo em que estudava em Coimbra, chegando a estar envolvido em atividades fraudulentas, pelo menos por duas vezes na sua vida, e preso na Cadeia da Relação do Porto, de onde saiu por influências do pai
que exercia o cargo de juiz. Depois levou uma vida errante entre Vila Real, Viseu e Lisboa e foi ao longo da sua vida um mulherengo que teve várias amantes.
Uma delas, Jacinta Rosa do Espírito Santo Ferreira, filha de modestos pescadores, acabaria por ser mãe de Camilo Castelo Branco e da sua irmã,Carolina. Mas, diz-se que pela imposição da avó paterna de Camilo, que não queria que o nome Castelo Branco estivesse envolvido com alguém de tão
humilde condição, Camilo acabou por ser registado como sendo filho de mãe incógnita.
Os pais de Camilo nunca se chegariam a casar e com a morte da mãe, quando
Camilo tinha apenas 1 ano de idade, o pai pôs os filhos ao cuidado das várias mulheres com quem se envolvia.
Poucos anos mais tarde, quando Camilo tinha apenas dez anos de idade o pai faleceu. A sua morte não passou despercebida a Camilo, acabando por lhe criar, como o próprio diria mais tarde, “um caráter de eterna insatisfação
com a vida”.

Primeiros anos e educação

Oriundo de uma família humilde de Sabrosa, era filho de Francisco Correia da Rocha e Maria da Conceição de Barros.
Em 1917, aos dez anos, foi mandado para o Porto, instalando-se numa casa apalaçada, de parentes afastados. Fardado de branco, servia de porteiro, moço de recados, regava o jardim, limpava o pó, polia os metais da escadaria nobre e atendia campainhas. Foi despedido um ano depois, devido à constante insubmissão. Em 1918, foi mandado para o seminário de Lamego, onde viveu um dos anos cruciais da sua vida. Estudou português, geografia e história, aprendeu latim e ganhou familiaridade com os textos sagrados. Pouco depois, comunicou ao pai que não seria padre.
Emigrou para o Brasil, em 1920, ainda com treze anos, para trabalhar na fazenda do tio, proprietário de uma fazenda de café em Minas Gerais. Ao fim de quatro anos, o tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais no Ginásio Leopoldinense, em Leopoldina. Distingue-se como um aluno dotado. Em 1925, convicto de que ele viria a ser doutor em Coimbra, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco anos de serviço, o que o levou a regressar a Portugal e a concluir os estudos liceais. 

Juventude

Os dois irmãos, órfãos de pais, foram recolhidos por uma tia de Vila Real que
se encarregou de os educar.
Através da tia recebeu uma educação básica irregular dada por dois padres de província. Formou-se no meio da pacata vida transmontana, lendo os clássicos portugueses e latinos e literatura eclesiástica.
Uns anos mais tarde, com o casamento da irmã Carolina, que era mais velha,
foi com ela, sob sua guarda, aos treze anos, para as imediações de Vila Real.
A sua permanência em Vila Real acabaria por influenciar muitos contos e
novelas, que escreveria mais tarde, passadas em cenário Minhoto,
nomeadamente as chamadas “Novelas do Minho”.

Com apenas 16 anos, decide, à revelia da irmã, casar-se com Joaquina
Pereira de França, de 14 anos, filha de lavradores, e instala-se com ela numa
casa em Friúme, no distrito de Vila Real.
O casamento precoce parece ter resultado de uma mera paixão juvenil e não resistiu muito tempo. O jovem
casal desentendia-se e discutia frequentemente e demorou menos de um ano para Camilo sair de casa, deixando a esposa, grávida de uma filha, para voltar para a casa da irmã.
Um ano depois de se ter casado (1841) decide que quer entrar para a universidade e para isso muda-se para a terra de Granja Velha para poder estudar com um Padre-tutor e preparar-se para os exames de admissão. Um
ano depois consegue ingressar na Escola Médico-Cirúrgica na cidade do Porto.



No Porto, o seu caráter instável, irrequieto e irreverente fá-lo ingressar
por uma vida estudantil boémia e leva-o a amores tumultuosos com Patrícia Emília do Carmo de Barros e uma freira, de nome Isabel Cândida.

Tal vida fá-lo descorar os estudos e não chega a concluir o curso de medicina.
Em 1846, publica os seus primeiros trabalhos literários no jornal “O
Nacional” no qual passara a trabalhar como amanuense. Esse posto, segundo
alguns biógrafos, surge a convite após a sua participação na revolta popular chamada Revolta da Maria da Fonte, ocorrida na primavera de 1846 contra o governo da altura, em que terá combatido ao lado da guerrilha
Miguelista (monárquica) contra os liberais (que pretendiam a instauração em Portugal de um regime constitucional).
As suas irreverentes correspondências jornalísticas valeram-lhe agressões físicas na rua por diversas vezes que o levaram ao hospital.
Nesse mesmo ano de 1846, em que passa a viver com Patrícia Emília do
Carmo, morre a sua legitima esposa. A filha de ambos morre no ano
seguinte. Patrícia Emília do Carmo, por sua vez, engravida, mas a sua relação
com Camilo passa então por uma série de desavenças que leva Camilo a
romper com a relação e a fugir, novamente, para a casa da irmã, residente nessa altura em Covas do Douro na região de Trás-os-Montes. Tinha então 21 anos. 

Adulto

Em 1849 volta à cidade do Porto para tentar o curso de Direito. Novamente
no Porto segue uma nova uma vida de boémia repleta de paixões, repartindo o seu tempo entre os cafés e os salões burgueses e dedicandose entretanto ao jornalismo, que o levaria a abandonar o curso de direito.

Em 1850 apaixona-se perdidamente por Ana Augusta Vieira Plácido, uma
jovem que está noiva de outro homem: Manuel Pinheiro Alves, um “negociante
brasileiro” (na verdade um português que tinha negócios no Brasil) que irá
servir de inspiração como personagem em algumas das suas novelas, muitas vezes com caráter depreciativo. Quando Ana Plácido se casa com aquele, Camilo tem uma crise espiritual e ingressa no seminário do Porto em 1851, pretendendo seguir a vida religiosa. Mas o seu tempo no seminário fá-lo ficar desiludido com a vida do clero e isto acabaria por influenciá-lo em muitas das suas obras nas quais se denota uma certa critica à vida religiosa. 

Saindo do Seminário e pondo de lado os paradigmas religiosos, Camilo decide
então seduzir e conquistar Ana Plácido, conseguindo-o, e tendo com esta uma relação adúltera.

Em 1859, após alguns anos de amores escondidos do marido desta, decidem fugir os dois. Depois de algum tempo em fuga, são capturados e julgados pelas autoridades. Camilo é acusado do crime de rapto e Ana
Plácido do crime de adultério (crime punível na altura).
Naquela época, o
caso emocionou a opinião pública, pelo seu conteúdo tipicamente romântico
de amor contrariado, à revelia das convenções e imposições sociais.
Apesar disso, acabaram ambos por ser enviados para a Cadeia da Relação, no Porto, onde o pai de Camilo também estivera encarcerado.
Na prisão Camilo conheceu e fez amizade com o famoso salteador Zé do Telhado, que roubava burgueses com uma quadrilha de ladrões e que participara em várias revoltas políticas. Com base nesta experiência e da amizade que fizera acabaria por escrever “Memórias do Cárcere”.
Ao fim de um ano de prisão, Camilo e Ana Plácido são absolvidos dos crimes a que tinham sido condenados (curiosamente pelo Juiz José Maria de Almeida Teixeira de Queirós, pai do então muito pequeno, Eça de Queirós), por não existirem provas de adultério consumado e porque a fuga foi feita com intenção das duas partes, não havendo por isso rapto. Camilo e Ana Plácido são então libertados e passam a viver juntos em Lisboa, cidade para a qual se mudam. Camilo tinha então 38 anos de idade.

Maturidade Literária

A vida conjugal com Ana Plácido
(embora não fossem casados)
poderia ter sido mais feliz se não
fossem os problemas financeiros
. A um filho já existente (que não se sabe se
seria de Camilo ou do exmarido) nascem mais dois.
Com uma família tão numerosa
para sustentar, Camilo começa então a escrever a um ritmo alucinante,
sendo efetivamente o único escritor de renome da sua geração a ter que
escrever para poder sobreviver, pois todos os escritores conceituados da
altura provinham de famílias com posses.
Isto explica como, em quase 40
anos, entre 1851 e 1890, Camilo tenha conseguido escrever mais de duzentas e sessenta obras, com a média superior a 6 livros por ano, sendo efetivamente o escritor português mais publicado de sempre. 

Em 1863 publica o seu romance mais
famoso: “Amor de Perdição” que lhe
consolida a reputação como escritor e lhe traz fama a nível nacional.

Entretanto a sua fama como escritor
aumentava. Por volta dos anos de 1880
não havia escritor mais famoso e
celebrado em Portugal do que Camilo
Castelo Branco, tendo inclusive a
Academia Real das Ciências de Lisboa
chegado a fazer-lhe uma homenagem.

Em 1885 o rei D. Luís I de Portugal, decide conceder-lhe o título de 1.º
Visconde de Correia Botelho. Nesse mesmo ano casa-se finalmente com
Ana Plácido. Contava então Camilo com 60 anos.

Velhice 

Desde 1865,  Camilo começou a sofrer de graves problemas visuais,
sintomas causados pelo avanço da sífilis (doença venérea), para além de
outros problemas neurológicos que lhe provocavam uma progressiva cegueira, aflitivamente crescente, que lhe ia atrofiando o nervo ótico, impedindo-o de ler e de trabalhar capazmente.
Esta incapacidade visual, aliada às dificuldades financeiras e à sua perceção de que tinha uns filhos
incapazes (considera o mais velho um desatinado e o mais novo um louco)
davam-lhe enormes preocupações, acentuavam-lhe o mau feitio e faziam-no
mergulhar numa profunda depressão.
A 1 de Junho desse ano, o Dr. Magalhães Machado visita o escritor em Seide. Depois de lhe examinar os olhos condenados, o médico com alguma
diplomacia, recomenda-lhe o descanso numas termas e depois, mais tarde, talvez se poderia falar num eventual
tratamento. Quando Ana Plácido acompanhava o médico até à porta, eram três horas e um quarto da tarde, sentado na sua cadeira de baloiço, desenganado e completamente
desalentado, Camilo Castelo Branco disparou um tiro de revólver na têmpora direita para se suicidar. Tinha 65 anos.

Sobre o autor e a obra

Camilo foi um dos mais brilhantes cultores do romance de costumes contemporâneos da época e da novela passional; o mais fecundo polígrafo e talvez o mais opulento e vernáculo prosador da nossa literatura, quase sempre com uma profunda sintonia com as maneiras de ser e sentir do povo português da sua época. Cultivou, além do romance e da novela, o conto, o teatro, a poesia, a história, a polémica, a crítica literária e outros géneros menores. Foi no romance que Camilo mais se notabilizou com um estilo predominantemente romântico, no entanto, não o foi exclusivamente.
O conjunto da sua obra, vasta e extensa, para além de ser um espelho das suas vivências e experiências de vida são também um reflexo da sua mentalidade, da sua perceção moral e das preocupações que determinaram de certa forma a sua vida.

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MIGUEL TORGA

[1907-1995]

Adolfo Correia da Rocha, conhecido pelo pseudónimo Miguel Torga nasceu em São Martinho de Anta, Vila Real, a 12 de agosto de 1907. 

Faleceu em Coimbra, a 17 de janeiro de 1995, tendo sido foi um dos mais influentes poetas e escritores portugueses do século XX.

Torga destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios. Foi laureado com o Prémio Camões de 1989, o mais importante da língua portuguesa.

Origem do pseudónimo

Em 1934, aos vinte e sete anos, Adolfo Correia da Rocha cria o pseudónimo "Miguel" e "Torga". Miguel, em homenagem a dois grandes vultos da cultura ibérica: Miguel de Cervantes e Miguel de Unamuno. Já “Torga” é uma planta brava da montanha, a urze que deita raízes fortes sob a aridez da rocha, de flor branca, arroxeada ou cor de vinho, com um caule incrivelmente retilíneo. 

Primeiros anos e educação

Oriundo de uma família humilde de Sabrosa, era filho de Francisco Correia da Rocha e Maria da Conceição de Barros.
Em 1917, aos dez anos, foi mandado para o Porto, instalando-se numa casa apalaçada, de parentes afastados. Fardado de branco, servia de porteiro, moço de recados, regava o jardim, limpava o pó, polia os metais da escadaria nobre e atendia campainhas. Foi despedido um ano depois, devido à constante insubmissão. Em 1918, foi mandado para o seminário de Lamego, onde viveu um dos anos cruciais da sua vida. Estudou português, geografia e história, aprendeu latim e ganhou familiaridade com os textos sagrados. Pouco depois, comunicou ao pai que não seria padre.
Emigrou para o Brasil, em 1920, ainda com treze anos, para trabalhar na fazenda do tio, proprietário de uma fazenda de café em Minas Gerais. Ao fim de quatro anos, o tio apercebe-se da sua inteligência e patrocina-lhe os estudos liceais no Ginásio Leopoldinense, em Leopoldina. Distingue-se como um aluno dotado. Em 1925, convicto de que ele viria a ser doutor em Coimbra, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco anos de serviço, o que o levou a regressar a Portugal e a concluir os estudos liceais. 

Carreira profissional e literária

Em 1928, entra para a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e publica o seu primeiro livro de poemas, Ansiedade. Em 1929, com vinte e dois anos, deu início à colaboração na revista Presença, folha de arte e crítica, com o poema Altitudes. A revista, fundada em 1927 pelo grupo literário avançado de José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca era bandeira literária do grupo modernista e bandeira libertária da revolução modernista. Em 1930, rompe definitivamente com a revista Presença, junto com Edmundo Bettencourt e Branquinho da Fonseca, por «razões de discordância estética e razões de liberdade humana», assumindo uma posição independente.
Crítico da praxe e das restantes tradições académicas, chama depreciativamente «farda» à capa e batina. Ama a cidade de Leiria, onde exerce a sua profissão de médico, a partir de 1939 e até 1942, onde escreve a maioria dos seus livros. Em 1933, concluiu a licenciatura em medicina pela Universidade de Coimbra. Começou a exercer a profissão nas terras agrestes transmontanas, pano de fundo de grande parte da sua obra. Dividiu o seu tempo entre a clínica de otorrinolaringologia e a literatura.

Após a Revolução dos Cravos, que derrubou o Estado Novo, em 1974, Torga surge na política para apoiar a candidatura de Ramalho Eanes à presidência da República (1979). Era, porém, avesso à agitação e à publicidade e manteve-se distante de movimentos políticos e literários.
Autor prolífico, publicou mais de cinquenta livros, ao longo de seis décadas, e foi, várias vezes, indicado para o Prémio Nobel da Literatura. 

TORGA E PESSOA

Rende homenagem a Fernando Pessoa, numa nota do Diário, aquando da morte do poeta:

Vila Nova, 3 de Dezembro de 1935
Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era.
(Diário, I, 1941).

Serão recorrentes, ao longo da obra de Miguel Torga, as referências admirativas a Fernando pessoa. Em 1983, escreverá que “ninguém antes tinha realizado o milagre de criar de raiz um Portugal feito de versos.” (Diário, XIV, 1987)

A obra de Torga

A obra de Torga tem um carácter humanista: criado nas serras transmontanas, entre os trabalhadores rurais, assistindo aos ciclos de perpetuação da natureza, Torga aprendeu o valor de cada homem, como criador e propagador da vida e da natureza: sem o homem, não haveria searas, não haveria vinhas, não haveria toda a paisagem duriense, feita de socalcos nas rochas, obra magnífica de muitas gerações de trabalho humano. Ora, estes homens e as suas obras levam Torga a revoltar-se contra a divindade transcendente a favor da imanência: para ele, só a humanidade seria digna de louvores, de cânticos, de admiração: (hinos aos deuses, não/os homens é que merecem/que se lhes cante a virtude/bichos que cavam no chão/atuam como parecem/sem um disfarce que os mude).

Para Miguel Torga, nenhum deus é digno de louvor: na sua condição omnisciente é-lhe muito fácil ser virtuoso, e enquanto ser sobrenatural não se lhe opõe qualquer dificuldade para fazer a natureza - mas o homem, limitado, finito, condicionado, exposto à doença, à miséria, à desgraça e à morte é também capaz de criar, e é sobretudo capaz de se impor à natureza, como os trabalhadores rurais transmontanos impuseram a sua vontade de semear a terra aos penedos bravios das serras.
E é essa capacidade de moldar o meio, de verdadeiramente fazer a natureza, malgrado todas as limitações de bicho, de ser humano mortal que, ao ver de Torga, fazem do homem único ser digno de adoração.

Prémios e homenagens

Em 1989, recebe o Prémio Camões. Trata-se do primeiro autor a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa. O prémio é entregue em Ponta Delgada, no âmbito das comemorações do 10 de Junho, numa cerimónia presidida pelo Presidente da República, Mário Soares.


Bichos

Bichos

Contos da-Montanha

Contos da Montanha

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O senhor Ventura

Antologia Poetica

Antologia poética

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84 anos pessoa

Fernando Pessoa

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa a 13 de junho de 1888 e aí faleceu a 30 de novembro de 1935, com apenas 47 anos.

“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Têm só duas datas: a da
minha nascença e a da
minha morte. Entre uma e outra coisa, todos os dias são meus“

“Passou nove anos da sua infância em Durban, na colónia britânica da África do Sul, onde o seu padrasto era o cônsul Português. Pessoa, que tinha cinco anos quando o seu pai morreu de tuberculose, tornou-se um rapaz tímido e cheio de imaginação, e um estudante brilhante. Pouco depois de completar 17 anos, voltou a Lisboa para entrar no Curso Superior de Letras, que abandonou depois de dois anos, sem ter feito um único exame. Preferiu estudar por sua própria conta na Biblioteca Nacional, onde leu livros de filosofia, de religião, de sociologia e de literatura (portuguesa em particular) a fim de completar e expandir a educação tradicional inglesa que recebera na África do Sul. A sua produção de poesia e de prosa em

inglês foi intensa durante este período, e por volta de 1910, já escrevia também muito em português. Publicou o seu primeiro ensaio de crítica literária em 1912, o primeiro texto de prosa criativa (um trecho do Livro do Desassossego) em 1913, e os primeiros poemas de adulto em 1914.”


“O Drama em Gente”


Ortónimo Alberto Caeiro Ricardo Reis Álvaro de Campos Bernardo Soares
 _“Embora solitário por natureza, com uma vida social limitada e quase sem vida amorosa, foi um líder activo da corrente modernista em Portugal, na década de 1910, e ele próprio inventou alguns movimentos, entre os quais um «Interseccionismo» de inspiração cubista e um estridente e semi- futurista «Sensacionismo». Pessoa manteve-se afastado das luzes da ribalta, exercendo a sua influência, todavia, através da escrita e das tertúlias com algumas das mais notáveis figuras literárias portuguesas.
_Pessoa escrevia em cadernos de notas, em folhas soltas, no verso de cartas, em anúncios e panfletos, no papel timbrado das firmas para as quais trabalhava e dos cafés que frequentava, em sobrescritos, em sobras de papel e nas margens dos seus textos antigos. Para aumentar a confusão, escreveu sob dezenas de nomes, uma prática – ou compulsão – que começou na infância. Chamou heterónimos aos mais importantes destes «outros eus», dotando-os de biografias, características físicas, personalidades, visões políticas, atitudes religiosas e atividades literárias próprias.
_Algumas das mais memoráveis obras de Pessoa escritas em português foram por ele atribuídas aos três principais heterónimos poéticos – Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos – e ao «semi-heterónimo» Bernardo Soares, enquanto muitos poemas e alguma prosa em inglês foram assinados por Alexander Search e Charles Robert Anon.
_Hoje, mais de oitenta anos após a morte de Pessoa, o seu vasto mundo literário ainda não está completamente inventariado pelos estudiosos, e uma importante parte das suas obras em prosa continua à espera de ser publicada.”

Exemplo marcante do desalento que caracteriza o poeta:

TABACARIA (excerto do poema)

“Não sou nada. Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo 


Texto_Profª_Margarida Teixeira

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Fernando Pessoa: O Menino que era Muitos Poetas


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Fernado Pessoa por João Villaret e Mário Viegas


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OLGA Tokarczuk

Prémio Nobel Literatura_19

Os prémios Nobel da Literatura de 2018 e 2019 foram atribuídos aos escritores Olga Tokarczuk e Peter Handke, respetivamente. O anúncio foi feito ao final da manhã desta quinta-feira, em Estocolmo, na Suécia, seguindo-se uma justificação exaustiva das razões que levaram à escolha de Tokarczuk e Handke por parte do júri, uma novidade que pretende tornar o processo de seleção do vencedor do prémio mais transparente depois da polémica que levou à suspensão do Nobel da Literatura durante um ano.

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Conduz o teu arado sobre os ossos dos Mortos


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sobre os osso dos mortos